Exclusivo: Novo secretário de mobilidade fala sobre seus planos para mobilidade da cidade
Por Emerson Pereira – Foto Reprodução Redes Sociais
Em 5 de fevereiro, o prefeito de Salvador, Bruno Reis, anunciou a chegada de Pablo Souza como novo secretário de mobilidade da cidade. Com experiência prévia na Semob, Pablo chega para substituir Fabrizzio Muller e reforçar o quadro técnico de uma das secretarias mais importantes da gestão municipal. Confira a seguir nossa entrevista exclusiva com o novo titular da Secretaria de Mobilidade (Semob):
Olá Pablo, fale um pouco sobre suas experiencias na área da mobilidade.
Iniciei minha trajetória em mobilidade como gerente de transportes da FIFA em 2013. Já havia apoiado na candidatura de Salvador ao evento e na realização dos planos operacionais. Fiquei por quase dois anos, realizando a organização da mobilidade na Copa das Confederações em 2013 e da Copa do Mundo, em Salvador, no ano seguinte.
Depois, passei dois anos no Rio de Janeiro colaborando com a realização dos jogos olímpicos na área do Maracanã e, em paralelo, apoiei Salvador na organização da mobilidade no carnaval.
Em 2021, com a chegada do Prefeito Bruno Reis, o Secretário Fabrizzio Muller me convidou a ocupar a Diretoria de Planejamento da Secretaria de Mobilidade e ao longo desses últimos 4 anos pude colaborar com a implantação do BRT, dos primeiros ônibus elétricos, do Plano Cicloviário e outras ações nessa área.
Em 2024 deixei a Prefeitura para atender a um convite para ser o gestor de transportes da Copa América nos Estados Unidos, na cidade de Dallas, no Texas. No retorno, integrei uma empresa de consultoria com os ex-Secretários de São Paulo (Sérgio Avelleda) e Porto Alegre (Rodrigo Tortoriello). Trabalhei para o ICLEI através da iniciativa TUMI de promoção da mobilidade sustentável apoiando cidades brasileiras a avançar nessa agenda.
Na sua opinião, qual é o maior desafio na mobilidade de capital baiana e como pretende atuar nesse sentido?
O sistema de transporte vem se recompondo da crise enfrentada no período de pandemia. A cidade tinha três empresas atendendo a população e permaneceram apenas duas. Não há apoio financeiro das demais esferas de governo para os passageiros de ônibus da cidade. Nosso maior desafio é continuar entregando novos ônibus. Em fevereiro a cidade conclui 114 novas unidades para atender diversos bairros e durante o ano de 2025 nossa meta é entregar outros 400 novos ônibus, maior número da história da cidade.
Os usuários do transporte se queixam muito sobre a qualidade do serviço na cidade, tanto por uma suposta deficiência de atendimento em algumas localidades quanto pela conservação dos ônibus. Como você pretende melhorar esse serviço para a população?
A lógica de deslocamentos na cidade mudou. Antes, todo bairro tinha linhas para a Lapa, Barra e Pituba. Com o crescimento da cidade e com a chegada de novos modais como metrô e o BRT o transporte passou a ser integrado.
A Secretaria de Mobilidade adquiriu recentemente um estudo de rede de transporte que utiliza como insumo os deslocamentos dos telefones celulares anonimizados. Nós não sabemos quem são as pessoas nem temos dados individuais, apenas os fluxos gerais de deslocamento. Através dessa tecnologia pretendemos ir ajustando continuamente a rede para oferecer um melhor serviço aos usuários (as).
Você participou da implantação do BRT como diretor de planejamento da Semob na época. Como você enxerga o crescimento do modal na cidade?
O BRT é um modal importante para a cidade. Hoje atende mais de 1 milhão de passageiros por mês. O principal ponto de abastecimento do modal é a Estação Rodoviária com os passageiros vindos do metrô. Das mais de dez linhas previstas ao longo da implementação do modal a cidade já conta com cinco linhas, a última inaugurada foi a Rodoviária Lapa atendendo 18 bairros da cidade como Nordeste de Amaralina, Santa Cruz, Rio Vermelho, Pituba, Itaigara, a região de Brotas e Federação através da Avenida Vasco da Gama.
É um serviço que conta com os ônibus mais modernos disponíveis no mercado. A Prefeitura trouxe na gestão de Fabrizzio Muller dois ônibus articulados. Precisamos avançar com o BRT e utilizá-lo como referência de qualidade para aprimorar o serviço em outros bairros da cidade.
O antigo secretário Fabrizzio Muller sempre defendeu a integração como uma forma mais eficiente de deslocamento. Você pretende seguir pelo mesmo caminho ou tem uma visão diferente?
Salvador tem hoje uma rede integrada. Esse é um caminho incontornável. O que precisamos fazer é aprimorar os atendimentos e garantir novos ônibus. Hoje Salvador conta com 40% da frota com ar-condicionado. Nossa meta é chegar a 70% ainda nesse ano.
Você tem um amplo conhecimento em mobilidade de diversas cidades e principalmente em grandes eventos. Quais novidades você pretende implementar na mobilidade de Salvador?
Desde a Copa nós temos implantado bolsões em pontos estratégicos na cidade. Isso funcionou bem durante os eventos esportivos e ficou como legado para o carnaval. Acredito que com o crescimento de festas como o Bonfim e Iemanjá vamos precisar ter uma estratégia mais robusta. Iemanjá certamente envolvendo o BRT.
Você está assumindo a secretaria faltando menos de um mês para o Carnaval. Fale um pouco sobre como você vê esse desafio com apenas alguns dias no cargo.
Salvador tem um projeto maduro de carnaval. Uma estratégia de trânsito e transporte referência. São 35 mil residências credenciadas pela Transalvador com a distribuição porta a porta de 70 mil adesivos de acesso. Temos as linhas expressas, atendimentos de táxi, mototáxi, linha gratuita Centenário Lapa. É um desafio grande, mas também é um projeto que eu participei ativamente nos últimos anos.
O que podemos esperar da mobilidade nos próximos quatro anos?
Ônibus novos, mais atuação da Secretaria na comunicação com a população para reforçar essa nova dinâmica de deslocamentos de um transporte integrado na cidade. Teremos o BRS que é um novo modal, similar ao BRT, e queremos realizar mais ações de mobilidade ativa. Caminhabilidade, segurança viária, avanço da estrutura cicloviária da cidade, em mobilidade sustentável e equipamentos verticais são iniciativas importantes.
O prefeito diz que o sistema de transporte coletivo está quebrado nas grandes cidades, isso mostra o tamanho do desafio que você terá pela frente. Como pretende resolver esse problema?
O sistema de transporte vem de uma crise profunda desde a pandemia. Há um problema no modelo. Todos os custos realizamos para melhorar o sistema viram tarifa para o usuário e sabemos como isso é sensível em uma cidade com as desigualdades sociais de Salvador. A iniciativa da Prefeitura em também adquirir frota diretamente é uma decisão correta tem se mostrado uma saída para garantir a qualidade que a população precisa.
A prefeitura vem tentando fazer uma transição energética no transporte público. Sabemos que o Brasil ainda engatinha nesse tema. Você acha que Salvador pode ser um grande exemplo para o Brasil nos próximos anos?
Salvador conta hoje com uma frota de 8 ônibus elétricos e um empréstimo encaminhado com o Banco Mundial para a aquisição de mais 100 veículos zero emissões. Temos o maior terminal em área pública do país e dois projetos executivos avançados para novas áreas na cidade. Precisamos também avançar com mais áreas de carregamento para veículos particulares para estimular a população nessa transição.
Sobre segurança viária, Salvador tem o menor índice de mortes no trânsito entre as capitais do Brasil desde 2017, mas sabemos que esse indicador vem subindo, como a Semob pode trabalhar em conjunto com a Transalvador para voltar a reduzir a mortalidade?
A Transalvador é o principal braço executor da política de mobilidade da cidade. O superintendente Décio Martins é um grande parceiro e tem compreensão profunda dos desafios. O crescente número de motociclistas mortos e feridos no trânsito tem sido uma preocupação em todas as cidades do Brasil. Estaremos trabalhando em conjunto nesse tema.
O prefeito falou em retornar as linhas que foram modificadas ou extintas em razão da integração com o metrô. O secretário Fabrizzio Muller informou que estavam estudando o retorno sem prejuízo a lógica da integração, como você vê esse retorno?
A Semob já iniciou esse movimento. A Rede de transporte é muito dinâmica, nós vamos constantemente trabalhar para aprimorá-la. Nos debruçaremos sobre o tema e pretendemos seguir o mesmo caminho, com muita responsabilidade.