Renovar frota é bom, mas somente isso não suficiente para o transporte público da cidade
Por Emerson Pereira – Foto Divulgação Semob
A Prefeitura de Salvador anunciou um plano ambicioso para renovar quase um terço de sua frota de ônibus até 2026. O projeto prevê a aquisição de cerca de 600 veículos, divididos em 170 ônibus referentes à renovação anual de 2025, 250 veículos através do PAC do Governo Federal e 100 ônibus elétricos provenientes de investimentos internacionais. A expectativa é que a renovação possa transformar a experiência de quem utiliza o transporte público na cidade.
Embora a iniciativa traga esperanças de melhorias, a simples renovação da frota não resolve todos os problemas estruturais do sistema soteropolitano. Entre os desafios destacados, está a necessidade de adquirir ônibus maiores para atender às linhas de maior demanda da cidade. Desde 2019, houve uma redução no tamanho dos veículos, passando de um padrão de 13,20 metros para 12,5 metros. Além disso, a configuração atual com três espaços para cadeirantes, que raramente são utilizados simultaneamente por pessoas com necessidades especiais, limita a quantidade de assentos disponíveis, resultando em um modelo que privilegia o transporte de passageiros em pé, o padrão já é apelidado por alguns usuários como “ônibus vagão”.
Outro ponto polêmico refere-se à retirada dos painéis traseiros que exibem os códigos das linhas que os coletivos da cidade estão operando. Desde 2019, com a anuência da Secretaria de Mobilidade (Semob), as empresas de ônibus do sistema Integra retiraram os painéis eletrônicos da traseira dos ônibus da cidade e passaram a comprar veículos sem o equipamento. A ausência dessa funcionalidade no fundo dos ônibus da capital tem prejudicado passageiros, que muitas vezes dependem da informação para embarcar na linha desejada.
Apesar da chegada dos ônibus com ar-condicionado, há uma crescente demanda por melhorias no conforto dos usuários. Itens como assentos mais confortáveis, pisos com isolamento térmico e conectividade por Wi-Fi ou entradas USB são apontados como fatores que poderiam elevar o padrão dos ônibus da cidade e a experiência de quem depende do transporte público na capital baiana.
A introdução de ônibus elétricos, embora bem recebida, enfrenta críticas pela exclusividade ao sistema BRT. Existe uma expectativa que esses veículos também sejam incorporados ao sistema convencional (Integra) e que sejam criadas infraestruturas adequadas nos principais terminais para atender às suas necessidades. Atualmente, apenas a estação Rodoviária do BRT e o Terminal Águas Claras contam com eletroterminais que permitem a operação regular desses coletivos.
Em resumo, a renovação da frota é essencial, mas gestores públicos precisam adotar uma visão mais técnica sobre esse tema. O combate à superlotação, a oferta de transporte digno e confortável, a inclusão de tecnologias modernas e uma transição sustentável da matriz energética devem ser prioridades. Para que as mudanças impactem de forma positiva e igualitária, é fundamental que sejam focadas em resolver os problemas reais enfrentados pelos usuários, promovendo um sistema mais eficiente e acessível na cidade.